sábado, 30 de maio de 2009

Esperança vã e medo, outro medo

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br

Para a compreensão do jornalismo que se faz hoje no Brasil, a campanha dos principais veículos contra qualquer política que beneficie a população negra é o meio de aferição definitivo. Uma disposição visceralmente anti-negro, impiedosa, direciona sem distinção reportagens e editoriais.

A reportagem de Chico Otávio de “O Globo”, publicada na edição de ontem ( 27.05.2009, p.9), tem ao lado uma opinião editorial (cujo título é “Esperança”) e seria quase impossível duvidar de alguém que levantasse a questão da mesma autoria para os dois textos.

“O Globo” atua com o ímpeto do combatente que vê em cada oportunidade de disputa “um decisivo divisor de águas”. A expressão é do texto “Esperança” sobre a liminar do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro suspendendo as cotas nas universidades estaduais, mas a empresa de comunicação tem jogado pesado, com práticas muito pouco profissionais, como se viu no assédio a deputados federais no episódio recente do Estatuto.

O ministro Edson Santos, sem coragem de citar nomes, referiu-se em Salvador, na abertura da II Conferência Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a certo diretor de jornalismo de um grande veículo, que pessoalmente teria feito ligações telefônicas para pressionar e constranger parlamentares. Todo mundo entendeu que ele se referia à Rede Globo de Televisão e a Ali Kamel.

Mas não nos devemos deixar seduzir pelas aparências. O episódio do Estatuto da Igualdade Racial e a indignação do ministro ocultam outros constrangimentos. O Estatuto foi rechaçado por amplo espectro político. Sob o pretexto de que não se pode aprovar o “ideal”, as forças do governo, negras e não-negras, justas e onipotentes como sempre, já haviam feito previamente seu trabalho de mutilação.

A esperança maior de Folha, Estadão, Globo, etc., expressão significativa do temor das elites, é excluir definitivamente a possibilidade de manifestação da identidade negra no campo da política. Defendem princípios discriminatórios diante do avanço demográfico e político da população negra. Defendem princípios diante de fatos que não se subordinam também à lógica governamental.

O que aflora sem controle no meio negro é a tomada de consciência do poder político. Por trás da disputa por cotas, o que existe não é o temor de que se inocule “o perigoso, errado e reacionário conceito de raças”, como reafirmou ontem “O Globo”. Na realidade, o que se teme é que esses pequenos avanços possam abrir caminho e ajudem a consolidar rupturas mais amplas com a ordem de privilégios que permanece inalterada há mais de quinhentos anos.



Fonte: Jornal Ìrohìn Online
http://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=4468

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